Destaque Educação Família

Autismo: Novas perspectivas e mais inclusão

Apesar dos avanços de políticas e iniciativas de inclusão escolar, a evasão entre estudantes autistas é uma realidade preocupante. Ela não aparece tanto na educação básica, na qual gira em torno de 5%, mas chega a 11,2% no Ensino Médio. É nas universidades, no entanto, que pessoas com TEA encontram as maiores dificuldades. Apenas cerca de 0,8% dos autistas de até 25 anos estão matriculados, segundo dados do IBGE. As informações são do Autistas Brasil, organização nacional fundada e liderada por autistas. 

Um dos objetivos da Autistas Brasil é o desenvolvimento de programas educacionais em larga escala. O Protocolo Individualizado de Avaliação (PIA), proposta criada por Arthur Ataide, vice-presidente da organização, é um exemplo deste trabalho. Estudante de Medicina, Arthur idealizou o protocolo a partir de experiências próprias no curso de graduação.

 – O PIA começou a ser desenhado no meu primeiro ano de medicina, a partir de um episódio em uma disciplina de Histologia. Eu ia muito bem nas provas teóricas, mas tirava sempre zero nas práticas. Descobri, após estudar no laboratório, que a dificuldade vinha da sobrecarga sensorial causada pela luz do microscópio. Quando expliquei isso ao diretor do curso, ele propôs conectar o microscópio a um monitor de TV. Assim, pude demonstrar meu conhecimento sem sofrimento, e tirei nota máxima. Esse episódio reforçou uma convicção: a barreira não era o meu conhecimento, mas a forma como ele era avaliado. As provas anteriores não mediam meu aprendizado, e sim as barreiras sociais impostas. O PIA nasceu para romper esse ciclo — para que avaliações deixem de ser uma fonte de exclusão e passem a ser uma oportunidade real de expressão para os estudantes autistas – diz.

Arthur começou cedo o engajamento social para melhorar a qualidade de vida dos autistas. Conhece bem o preconceito e as dificuldades que muitos enfrentam nas escolas e na realização de sonhos.

– Essa é uma luta que carrego desde a infância. Comecei minha militância no campo do autismo aos 10 anos, quando já me sentia atravessado por discriminações, não apenas pelo bullying dos colegas, mas até de professores que consideravam inconcebível ter um estudante com deficiência em sala regular. Muitas vezes fui rejeitado ou tratado com violência por precisar de acessibilidade nas avaliações. A primeira vez em que compartilhei meu desejo de ser médico, uma professora disse que isso era impossível para um autista, que eu só poderia ser paciente. Essa experiência marcou profundamente o meu percurso – lembra o estudante. 

A vida universitária tem sido mais tranquila e marcada por boas experiências.

– Na universidade, pela primeira vez, senti segurança em me afirmar como estudante com deficiência, sem vergonha e sem medo de ser ridicularizado por precisar de acessibilidade. Na minha instituição, sempre tive a certeza de que minhas necessidades seriam bem recebidas, desde a reitora até o diretor do meu curso. Ali, a diversidade é entendida como uma riqueza, e as diferentes realidades dos alunos são vistas como formas de enriquecer também o campo do conhecimento – avalia Arthur. 

E, graças a isso, o futuro médico tem também a chance de mudar o futuro de muitos autistas. O PIA foi apresentado como Projeto de Lei 4.696/25 na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) pela deputada Dani Balbi (PCdoB), tendo sido aprovado em primeira discussão. O Protocolo Individualizado de Avaliação assegura, mediante apresentação de laudo médico ou da Carteira de Identificação da Pessoa com TEA (CIPTEA), que os alunos tenham direito a um protocolo adaptado às suas necessidades, Entre as medidas previstas estão a substituição de provas por trabalhos e adaptações pedagógicas que respeitem a singularidade de cada estudante. 

– O PIA é extensivo a todos os níveis de ensino — do básico ao superior. Ele garante que nenhum estudante autista seja deixado para trás. O protocolo estabelece que é o estudante quem define a forma como suas avaliações serão realizadas, de acordo com suas necessidades. Ou seja, não é mais a instituição ou o professor quem decide o que é razoável. O conteúdo continua o mesmo, mas o formato da avaliação se adapta à realidade do aluno, garantindo equidade – explica Arthur.

A proposta do PIA vem ao encontro de mudanças na compreensão do transtorno do espectro autista (TEA) no campo científico. Estudos recentes em Psicologia Evolucionista e Genética de Populações indicam que o autismo, historicamente associado a um conjunto de déficits neurobiológicos, pode ser uma variação cognitiva resultante da própria evolução do cérebro humano. 

Para a Autistas Brasil, esse novo olhar científico contribui para romper com visões patologizantes e reforça a necessidade de reconhecer o autismo como parte da diversidade humana. “O autismo não é um erro da natureza, mas um sinal de que o cérebro humano se transformou em múltiplas direções; a evolução não nos pede uniformidade, nos pede compreensão”, reforça o presidente da organização, Guilherme de Almeida.  

Imagem de Venita Oberholster por Pixabay

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *