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SUS passa a oferecer novo exame para detectar câncer de colo do útero

O Ministério da Saúde deu início, este mês, à implementação do exame molecular de DNA-HPV no SUS. O novo teste faz parte do Plano Nacional para o Enfrentamento do Câncer do Colo do Útero e começou a ser oferecido na rede pública desde o dia 15 de agosto, de forma gradual, no Distrito Federal e nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Bahia, Pará, Rondônia, Goiás, Rio Grande do Sul e Paraná.

Com tecnologia 100% nacional, o exame de DNA-HPV substitui o tradicional Papanicolau como método primário de rastreamento do câncer de colo do útero. Além de aumentar o intervalo entre exames de três para cinco anos para pacientes com resultado negativo, o teste de biologia molecular é capaz de identificar 14 tipos de HPV (papilomavírus humano) de alto risco.

– O Papanicolau não identifica tipos de HPV. Ele não “enxerga o vírus”, apenas mostra se existem mudanças nas células que podem ser causadas por uma infecção, não específica do vírus HPV. Já o exame de DNA-HPV consegue mostrar quais tipos de vírus estão presentes, inclusive aqueles mais perigosos, que são os principais causadores de câncer de colo do útero, e orientar melhor o cuidado da mulher – explica a ginecologista e obstetra, fundadora e CEO da See Me, Stephanie Caser. 

Especialista em endocrinoginecologia e patologias do trato genital inferior, a médica destaca a importância do exame para o rastreamento e intervenções precoces para o câncer de colo do útero:  

– O exame de DNA-HPV é considerado o melhor exame para o rastreamento do câncer de colo do útero, substituindo o Papanicolau como primeiro passo. Se o resultado for negativo, a mulher é considerada protegida por 3 a 5 anos; se for positivo, de acordo com qual HPV, é necessário complementar com o Papanicolau ou ir direto para a colposcopia. Essa estratégia, adotada no mundo desde 2011, agora chega ao Brasil e deve transformar o cuidado com a saúde feminina, embora a transição leve algum tempo até substituir totalmente o modelo atual.

DNA-HPV – Autocoleta deve ampliar alcance do preventivo

Outro grande benefício da implementação do exame DNA-HPV no SUS é possibilidade da autocoleta. As pacientes receberão orientações de profissionais de saúde de como fazer esta coleta em casa e entregar em uma Unidade Básica de Saúde (UBS).

– A autocoleta aumenta o alcance do preventivo porque é simples, menos invasiva e pode ser feita em casa, sem depender de consulta médica imediata. Isso reduz barreiras como vergonha, dor ou dificuldade de acesso ao serviço de saúde. Estudos mostram que a adesão é muito alta, especialmente entre mulheres que nunca fizeram o exame ou estavam há anos sem realizá-lo, ampliando a cobertura do rastreamento e permitindo detectar precocemente quem precisa de acompanhamento – avalia Stephani Caser.

HPV – Da prevenção à gestação 

Sexualmente transmissível, o HPV tem vários tipos. Pode afetar peles e mucosas, causando verrugas genitais, ou estar associado a tumores, como o câncer do colo do útero. O SUS já oferece vacina de prevenção contra o HPV para meninas e meninos de 9 a 14 anos. Prevenir e tratar de forma adequada reduz problemas mais sérios à saúde. 

– Apesar de não existir um remédio que “mate” o HPV diretamente, existe vacina para prevenir os tipos mais perigosos do vírus, e ela é uma grande aliada para reduzir os riscos no futuro também para quem já teve contato com o vírus. O tratamento é feito para as lesões que ele causa: verrugas podem ser removidas com pomadas, cauterização, laser ou pequenas cirurgias, e alterações no colo do útero podem exigir acompanhamento ou procedimentos específicos para evitar evolução para câncer – explica a ginecologista. 

O maior problema é a demora no diagnóstico e a consequente demora para iniciar o tratamento.  

– No Brasil, infelizmente, a maioria dos casos de câncer de colo do útero ainda é diagnosticada em fases tardias, quando a doença já está avançada e as chances de cura são muito menores. Em estágios iniciais, o tratamento pode alcançar mais de 90% de cura e até preservar a fertilidade, mas, quando o diagnóstico é feito tarde, muitas vezes é necessário recorrer a cirurgias radicais ou radioterapia, que impedem a possibilidade de engravidar e reduzem significativamente a sobrevida. Isso reforça a importância do rastreamento regular com o exame de DNA-HPV e do acesso ao tratamento precoce para mudar esse cenário no país – afirma a especialista. 

Mesmo sem a malignidade do câncer do colo do útero, o HPV pode trazer algumas complicações à gestação, lembra a médica:

– A mais rara, mas grave, é a papilomatose respiratória do recém-nascido, quando o vírus passa no parto e causa verrugas nas vias aéreas do bebê. Além disso, pesquisas mostram associação entre HPV e maior risco de parto prematuro e ruptura prematura das membranas, o que pode afetar a saúde do bebê. Outro ponto é que as lesões do colo do útero tendem a evoluir mais rápido durante a gravidez, exigindo acompanhamento colposcópico cuidadoso. 

A meta do Ministério da Saúde é de que até dezembro de 2026, o exame DNA-HPV seja oferecido em todo o país, beneficiando cerca de 7 milhões de mulheres de 25 a 64 anos por ano, faixa-etária alvo do tratamento preventivo.

Foto em destaque: Imagem de Silvia por Pixabay

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