Bullying

Bullying

Muitas pessoas acham que o bullying é apenas uma expressão “da moda”, que supervaloriza implicâncias comuns na infância e adolescência. De acordo com a definição da palavra, bullying é um anglicismo usado para descrever atos de violência física e psicológica, praticados intencionalmente e repetidas vezes. Sendo assim, não pode ser considerada uma simples implicância ou brincadeira de mau gosto.

– Por princípio, a brincadeira é prazerosa para todos aqueles que dela participam. É importante perguntar se o apelido incomoda, se a implicância foi entendida ludicamente. Alguns contextos favorecem comportamentos desse tipo, como é o caso das partidas de futebol. Se está bom pra todo mundo, entendemos que há um acordo, um consenso. Mas se alguém se sente ofendido ou exposto, é importante que se entenda então um limite. Não podemos naturalizar situações nas quais alguém se sinta desrespeitado ou ofendido. E isso vale para todas as idades – destaca Paula Galvão, psicóloga clínica de infância e adolescência

Se esse tipo de situação causa transtornos a um adulto, não é difícil imaginar o sofrimento pelo qual passam crianças vítimas de bullying. Sofrimento que se estende à família.

– Quando minha filha começou a sofrer bullying, ela sofreu muito, muito mesmo. Como pais zelosos, a fortalecemos em casa, mostrando o quanto ela é linda, não só pelo físico, mas como uma menina de ouro. Todos, sem exceção, a adoram. Mandamos ela reagir, mas ela não o faz, prefere fingir que não escutou, mas com certeza sofre com isso – diz a mãe de X, 10 anos, que vem sendo vítima de bullying no colégio.

A mãe de X se autodefiniu como uma “leoa defendendo a sua cria”, quando procurou a direção do colégio ao saber do bullying. A filha não queria mais ir à escola e chorava muito. A instituição promoveu palestras sobre o tema e trabalhou as diferenças em sala de aula. O problema, infelizmente, voltou a acontecer, e a mãe está disposta a levar o caso à polícia se as provocações não acabarem. É perturbador ver o sofrimento da filha.

– Tentamos a terapia com psicóloga por três anos, sem sucesso. É um trabalho diário, árduo e doloroso – avalia a mãe.

Levar o caso à polícia não é exagero, bullying é considerado crime. Mas tudo o que se pode resolver por meio do diálogo é melhor. E pais e escolas têm papéis fundamentais na orientação de crianças e adolescentes.

– A escola, assim como a família, representa um contexto favorável ao desenvolvimento de habilidades, à formação de opiniões e por isso é fundamental que ela tenha um olhar atento ao bullying. Apesar de esse ser um termo já bastante difundido e amplamente utilizado pela sociedade, há ainda muito a ser discutido. Não adianta simplesmente punir e ameaçar os agressores, é fundamental que a escola ofereça espaços de diálogo e trocas entre os alunos e os professores, que devem ficar atentos à forma com a qual as crianças e os jovens se relacionam com a mesma importância que dão à transmissão dos conteúdos. É importante que se crie um ambiente de liberdade no qual cada membro da comunidade escolar se sinta à vontade para falar de si sem medo. Capacitar os professores, inspetores e todos os integrantes da escola para que eles reconheçam comportamentos de constrangimento,humilhação e exposição é importante. Não para que atuem como vigilantes ou agentes de punição, mas para que sejam mediadores das relações – afirma Paula Galvão.

No intuito de proteger os filhos, muitos pais acabam optando por tirar a criança da escola, mas a psicóloga destaca que essa não é a melhor solução.

– É comum que os pais se apressem em trocar a criança de escola afastando a vítima do seu agressor, numa tentativa desesperada de acabar com o sofrimento da criança. Mas atenção: ao mesmo tempo, acaba afastando-a também de seus amigos e de seus professores. Se a mudança ocorre de maneira impulsiva, tende a ser pouco efetiva, uma vez que a criança ou o jovem não terá desenvolvido as habilidades de enfrentamento importantes para qualquer contexto desafiador e a probabilidade é que a história se repita. É importante ponderar bastante e analisar junto à escola e à própria criança as melhores alternativas. Isto feito, caminho liberado para mudanças – diz Paula.

Confira algumas orientações de Paula Galvão para as situações relacionadas ao bullying:
Quando o filho é vítima de bullying – “Procure escutá-lo: saber como se sente, incentivá-lo a reconhecer e a valorizar suas potencialidades e ajudá-lo a buscar saídas e estratégias para lidar com a situação. É importante que não se estimule a criança a “devolver na mesma moeda” e nunca, de forma alguma, os pais devem punir a criança vítima de bullying. Não é assim que a criança aprende a se defender. Ao contrário, isso só faz com que ela se sinta mais humilhada”.

Diálogo com a escola – “Avisar a escola e buscar uma parceria é fundamental, e é sempre bom lembrar que tudo começa com o respeito às diferenças”.

Quando o filho é o agressor – “Nesse caso é fundamental que os pais reflitam sobre suas próprias condutas buscando analisar detalhadamente seu comportamento a fim de reconhecer condutas hostis, agressões verbais, falta de escuta e respeito à individualidade de cada um da família. Com o passar do tempo, algumas condutas de pouco respeito às diferenças são naturalizadas dentro de casa e o que observamos é uma violência velada, disfarçada. Quando todos estão atentos e sensíveis para identificar e rever seus comportamentos, naturalmente o padrão de comportamento agressivo vai se modificando e maiores espaços de troca, diálogo e escuta vão se formando”.

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