Olhar científico sobre o autismo

Olhar científico sobre o autismo

Pesquisador brasileiro trabalha em busca da reversão do autismo

Dificuldades na interação social, na comunicação e no comportamento são os sintomas mais comuns do autismo, mas variam muito de criança para criança. Trata-se de um distúrbio com diferentes níveis de comprometimento e o diagnóstico não é simples. Depende de avaliação clínica e de equipe multidisciplinar, que inclui especialidades como psicologia e fonoaudiologia. É em busca de dados científicos que auxiliem no diagnóstico, no tratamento e mesmo possibilitem a cura do autismo que o biólogo brasileiro Alysson Muotri, professor da Faculdade de Medicina e diretor do Programa de Células-Tronco da Universidade da Califórnia, vem se debruçando em pesquisas sobre o Transtorno do Espectro Autista. Na entrevista concedida ao Quem Coruja, Muotri fala da motivação e do objetivo desse trabalho, que, esperamos, apresente cada vez mais resultados positivos.

Quem Coruja – Há quanto tempo o senhor trabalha com pesquisas relacionadas ao autismo e o que o levou a se debruçar sobre o assunto?
Muotri – Trabalho há 15 anos com o neurodesenvolvimento humano e há 10 anos com autismo. Decidi inicialmente focar no estudo do espectro autista para entender a evolução do cérebro social humano. Hoje em dia minha motivação maior é busca de melhores tratamentos para que indivíduos autistas possam desfrutar de suas habilidades e se tornarem independentes.

Quem Coruja – Suas pesquisas apontam para a possibilidade de o autismo ser reversível. Como estão esses estudos? Há medicamentos sendo desenvolvidos ou testes realizados?
Muotri – Correto, mostramos que o autismo é reversível a nível molecular e celular. Isso confirma observações clínicas que sugerem que 1-5% dos autistas saem do espectro por alguma razão ainda desconhecida. Usando o modelo celular, derivando mini-cérebros de indivíduos autistas no laboratório, conseguimos testar diversas drogas que auxiliem nessa reversão. Algumas delas já estão em ensaios clínicos, outras ainda precisam ser otimizadas para uso em humanos e melhorar a penetração no sistema nervoso. Tudo isso leva tempo e muito financiamento.

Quem Coruja – Como o senhor avalia os estudos realizados pelo mundo, há muita pesquisa e profissionais comprometidos com o assunto? Quais avanços destacaria?
Muotri – A partir do momento de que mostramos que o autismo pode ser revertido, houve um tremendo aumento no número de profissionais pesquisando autismo, pois a perspectiva não é mais aquela de não há o que fazer. Destaco avanços na área da genética, estamos descobrindo quais os genes implicados no autismo e como eles alteram o comportamento humano.

Quem Coruja – Fala-se muito da dificuldade do diagnóstico do autismo. A que isso se deve?
Muotri– Isso acontece porque o espectro é muito variável. E um reflexo da heterogeneidade genética, ou seja, diversas causas distintas levando a um processo semelhante, mas não idêntico. O fato de acontecer durante o desenvolvimento é outro fator que confunde, pois também existe uma variabilidade natural do ser humano se desenvolver socialmente. O diagnóstico ainda é clínico, mas imagino que num futuro não muito distante sera complementado pela informação genômica do indivíduo.

Quem Coruja – Há uma variação muito grande no Transtorno do Espectro do Autismo, não é? Isso é uma dificuldade para a ciência? É possível, por exemplo, encontrar solução para um nível de autismo e não para outro?
Muotri – Sim, isso atrapalha um pouco. A ciência tem optado por dividir o espectro a partir da causa genética. Por exemplo, pessoas com mutações no gene MECP2 agora são agrupadas na síndrome de Rett. Antigamente, faziam parte do espectro autistas. O mesmo aconteceu com aqueles carregando mutações nos genes da síndrome do X-fragil e, possivelmente, irá acontecer com outros genes. O Shank3 é um exemplo, esses agora são classificados com a síndrome de Phelan McDermid. No futuro, não usaremos “autismo” como diagnóstico, mas sim como um sintoma comum a diversas síndromes. Ensaios clínicos recentes não mais recrutam indivíduos “autistas” para participar das pesquisas, recrutam indivíduos autistas com mutações no gene X, Y ou Z. Daí a importância em se conhecer qual a genética do indivíduo autista. Isso facilita na personalização do tratamento. É possível que um tratamento que funcione para todos os autistas seja muito difícil. Da mesma forma que não temos um tratamento para todos os tipos de câncer, mas sim para subtipos de câncer. O mesmo irá acontecer para o autismo.

Quem Coruja – Todo pesquisador vislumbra a resposta, a solução. O senhor espera vivenciar a “cura” do autismo?
Muotri – Sim. Se depender de mim veremos isso ainda nessa geração. Infelizmente, existem variáveis que não controlamos, como o apoio financeiro a esse tipo de pesquisa. Dependemos cada vez mais da filantropia para seguir com as pesquisas. Por isso a conscientização de como acontece a pesquisa é importante. Parabéns pela sua iniciativa em contribuir com isso!

 

3 Comment(s)

  • by Jonatha Moreira Sales Postado em 12/10/2017 08:05

    Que Deus conceda a cura para o autismo através de seus estudos, parabéns.

  • by Tatiany Postado em 12/10/2017 22:02

    Que Deus te abençoe.

  • by Deborah de Oliveira Falcão Borges Postado em 14/10/2017 10:51

    Fico feliz de ler sobre esses estudos para a evolução no tratamento do autismo. Tenho esperança e comemoro cada passo de superação que meu filho dá em direção a autonomia.

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