Um projeto de vida e de teatro

Um projeto de vida e de teatro

Projeto No Palco da Vida trabalha a humanização por meio da arte

A crença no poder da arte como ponte entre o mundo do que temos e do que é possível alcançarmos parece ser a engrenagem que move projetos como o No Palco da Vida, de Wal Schneider. Desde  2007, ele oferece aulas de teatro a crianças e jovens do Complexo do Alemão (atualmente, para moradores de várias regiões do Rio de Janeiro).

– Nosso trabalho é provocar e mostrar aos nossos alunos que é possível eles serem o que quiserem e realizarem seus sonhos. Os meninos e meninas que passaram por aqui (mais de 1 300), hoje em dia são pessoas com uma outra visão do que seja a vida, sabem respeitar e compartilhar com os outros. Antes de a gente ser artista a gente tem que aprender a se humanizar. O que é humanizar? É se colocar no lugar do outro, depois disso começamos a fazer teatro e decorar textos que é coisa simples.

O projeto também é aberto a adultos, e conta com sede fixa, em Olaria, com biblioteca, discos de vinil, CDs e videoteca. Além das aulas de teatro, são oferecidas oficinas de literatura, educação musical, expressão corporal, interpretação. Tudo gratuitamente, com a convicção de quem considera a arte uma ferramenta de transformação.

Wal Schneider (blusa verde), entre participantes do projeto. Foto de divulgação

Wal Schneider (blusa verde), entre participantes do projeto. Foto de divulgação

– Minha descoberta lá no interior do Ceará, aos 5 anos, foi com o circo. Minha minha grande mágica foi quando vi os palhaços com o nariz vermelho, aquilo foi o grande sorriso que faltava na minha vida. Sempre, desde criança, tive o sonho de me tornar ator, e foi com o circo que bateu aquele encanto de ser artista. Foi meu primeiro contato com a arte. O contato com a formação do circo me deu um guia de como formar o meu ator. E é essa formação que considero importante e que aplico no projeto. É se permitir errar e aprender com os erros. Não apresento uma arte com a perfeição que se exige sobre ela. No projeto, chegam meninos e meninas das mais variadas regiões do Rio. Tenho, primeiro, que melhorar a autoestima, pois a maioria é de comunidade e enfrenta preconceitos, resistência da família. Chegam meninos ou meninas com deficiência, e adaptamos as aulas e os espetáculos. Faço um ser a ponte para o outro. O meu grande prazer é vê-los em cena falando textos, falando um verbo, pegando um livro, tanta gente que aparece lá e não conhece um livro de arte, e apresento o livro para eles de uma maneira mágica, e a pessoa vê o quão gostoso é aprender. Foi o teatro que me deu essa consciência. Falo para eles: “se estou aqui, vocês podem ser o que quiserem”. Há casos como o Willian, que era muito agressivo e hoje é monitor do projeto, atua, escreve, dirige. Damião tinha largado a escola por oito anos, mas voltou após um mês de oficina. A Mia fez oficina com a gente quando era mais nova e hoje, já formada, dá aulas para a turma infantil aqui no projeto. Caio acorda às 5h para vender salgado e ajudar a pagar o aluguel da sede; a dona Ana, 80 anos, toca violão e conta histórias para a crianças. O teatro me tornou visível, quero que a voz desses meninos também chegue ao mundo – diz Schneider, hoje reconhecido e premiado pelo trabalho desenvolvido com o No Palco da Vida.

Motivação é o que não falta para o artista.

– Tem uma frase que sempre falo que é “educar é passar valores”. Minha felicidade é poder compartilhar e despertar sonhos no máximo de meninos e meninas que conseguir. O meu retorno é vê-los seguindo seus sonhos e saber que fiz parte da construção de um cidadão ético e respeitoso, que vê nos livros a oportunidade de transformar a própria vida e também uma grande amizade. Ver a alegria dessas pessoas ao serem aplaudidas no palco não tem preço. Quando vejo essas pessoas aqui, tenho certeza que vale a pena.

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