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À espera de uma gravidez

Relatos de quem já passou pelas dificuldades para engravidar  

Médicos, hormônios, atenção ao período fértil, tratamentos caros. Para algumas mulheres (e homens também), a gravidez não acontece tão facilmente. E também não é nada fácil passar pela espera, muitas vezes longa, para realizar o sonho da maternidade. O Quem Coruja já abordou o assunto em outras matérias, sempre buscando orientações de especialistas. Mas dessa vez abre espaço para o compartilhamento de experiências. São exemplos reais que podem ajudar quem está passando por esta expectativa agora.

Depois de seis anos, sonho realizado
“Tentei engravidar por seis anos. Fiz vários tratamentos, hiperestimulação à base de remédios, junto com coito programado e vários exames específicos. No início, o mais complicado era aceitar que não acontecia e o porquê eu estava passando por aquilo. Nos primeiros dois anos, foi muito difícil, mas depois eu comecei a pensar de forma mais prática sobre o assunto e focar em como resolver, se não acontecesse naturalmente. E não aconteceu. Então, decidimos guardar dinheiro com a finalidade de uma Fertilização in Vitro. Em 2016, fiz o tratamento e consegui meu tão sonhado positivo”.
Raquel Castro Rodrigues, professora. Mãe de Eduarda, 8 meses

Abortos de repetição
“Não demorei a engravidar quando parei de tomar anticoncepcional. Mas foi com a mesma rapidez que sofri o primeiro aborto espontâneo. Depois de alguns exames, o médico disse que era algo comum e que eu podia engravidar novamente. Mais uma vez, engravidei sem demora. E, mais uma vez, sofri um aborto. Depois da terceira gravidez, seguida novamente de aborto, já estava abalada. Muita expectativa e muita frustração. Resolvi procurar um especialista em reprodução humana, fiz exames específicos e o diagnóstico era simples assim: eu não tinha problemas para engravidar, mas para segurar a gestação. Precisei fazer um tratamento com vacinas (a chamada vacina do marido, que foi proibida em 2016, pela Anvisa). Também tomei vacinas durante praticamente toda a gravidez (neste caso, para evitar trombofilia). Ainda tive uma gravidez ectópica (quando o óvulo fecundado fica fora do útero; no meu caso, ficou na trompa). Isso me rendeu hemorragia interna e quatro dias no hospital. Hoje, tenho dois filhos. Vejo que tudo valeu a pena. Mas não foi fácil. Chorei muito, ficava ansiosa demais. Entendo perfeitamente quem está passando por isso”.
Marta Paes, jornalista. Mãe de Maria (9 anos) e Lucas (7 anos)

Dificuldade para engravidar novamente
“Quando decidi engravidar, tomava anticoncepcional, e cerca de cinco meses depois já estava grávida da Helena. Foi tudo uma maravilha, não tive nenhum problema. Quando ela estava com quase dois anos, pensamos em ter outro filho. Parei de tomar o remédio novamente, mas nada. Passou um ano e meio, mais ou menos, e nada. E havia aquelas pessoas que diziam: “ah quando você relaxar, você consegue engravidar”, “você já tem uma filha, vai engravidar normalmente”. Mas passou mais um ano e meio, e nada. Então, comecei a ver que não era normal. O meu ginecologista, que fez o parto da Helena, pediu uns exames e sugeriu o coito programado, que é um tratamento com hormônios que estimulam a ovular mais, e tem dia certo para ter relações sexuais. Cheguei a formar três óvulos e nenhum foi fecundado. Esperei por conta da carga de hormônio, fiz uma outra vez, e nada. Foram dois tratamentos com esse médico, até que uma amiga me indicou uma especialista em fertilidade. A médica me passou mais uma vez o coito programado, e não deu certo. Meu marido fez espermograma, e também não acusou nada. A princípio, todos os meus exames estavam normais e não entendíamos bem. Fui em outro especialista, que fez mais uma tentativa de coito programado, e, como não deu certo, partiu para a fertilização in vitro. Entre uma tentativa e outra, temos que esperar, pois a carga hormonal é grande. Eu ficava estressada, irritada, é um período muito complicado. Fiz fertilização, e o médico perguntou se eu queria fazer biópsia dos embriões. Fiz em três embriões e a conclusão foi que os três tinham problemas genéticos, incompatíveis com a vida. Depois disso, é que foram me pedir um exame de sangue para ver problema genético, e descobrimos que eu tenho uma alteração no cromossomo 5 e 6, é um par com defeito. Na hora que a gente manda o código genético, posso mandar o par normal, foi o caso da Helena, ou o defeituoso, e não engravidar. Eu até tenho uma chance de engravidar sozinha, mas é pequena. Então, fui a uma outra médica, fiz mais uma tentativa de fertilização. Ela até sugeriu fertilização com óvulo doado de outra mulher, mas essa ideia não me soou bem. Fiz a última tentativa, não deu certo. Depois disso, desisti de fazer tratamento. Agora, resolvi me cuidar. Nessa história toda, é muito hormônio, frustração, ansiedade. Se Deus quiser me mandar outro filho, será do jeito que mandou a Helena. Eu realmente desisti, não faço mais tratamento. Só quem passou sabe como é difícil isso tudo”.
Fernanda Correa, dentista. Mãe de Helena, 8 anos

Quando o foco mudou
“Tentei engravidar por cinco anos (dos 28 aos 33), quando abandonei o projeto. Resolvi entender que algumas pessoas veem ao mundo para serem mães e outras não. E isso não poderia jamais me impedir de ser feliz. No início, fiz uma série de exames e todos apontavam para uma perfeita compatibilidade e fertilidade do casal, especialmente em razão do fato de que eu ovulava normalmente. Até que numa ressonância apareceu uma aderência entre uma trompa e a alça do intestino. A minha ginecologista e uma amiga médica me garantiram que com a outra trompa eu engravidaria normalmente, não sendo este um impeditivo. Mas, por via das dúvidas, eu me submeti a um exame de histerossalpingografia. O exame é bem chatinho, mas prometia sacudir a trompa a ponto de soltá-la, permitindo a tão sonhada gravidez. Mas de nada adiantou. Mudei de médica. Recebi um outro pedido desse mesmo exame. Mudei de médica novamente. Fui para uma renomada em fertilidade, e ela me sugeriu fazer uma indução à ovulação com coito programado. Fiz várias ultrassonografias seriadas, e quando o óvulo estava no tamanho certo tomei uma injeção na barriga e corri para o abraço. Mais uma vez não tive sucesso. Essa mesma médica me ofereceu um tratamento de fertilização compartilhado. Fiquei assustada. E foi então que abandonei o projeto e resolvi esperar os planos de Deus sobre a minha vida. Com 34 anos, fui a uma ginecologista por conta de uma alergia. Médica maravilhosa, resolveu a alergia e quis mexer na pílula. Expliquei que não tomava pilula e contei o meu caso. Depois de ver meus exames, ela me disse que eu tinha que procurar uma clínica de fertilidade. Nesse mesmo dia, tinha marcado uma mastologista, que também veio com esse papo. Estava com uma viagem incrível marcada e nem passava pela minha cabeça voltar a pensar em engravidar. Mas a obstetra falou para eu refazer devagar os exames, começando pela histerossalpingografia. Ri, guardei os exames, mas depois acabei fazendo. Um dia, veio um calorão no rosto, uma dor de cabeça e um pequeno vaso estourou no olho. Num almoço de domingo, minha mãe suspeitou que eu estava grávida. Nesse mesmo dia, num encontro de amigas, uma delas vendo as minhas lamentações, pediu para medir a minha temperatura, pois suspeitava que eu pudesse estar grávida. E ai, horas depois, o teste de farmácia confirmou: eu finalmente realizaria o sonho de ser mãe! Durante todo aquele período, eu ficava muito incomodada com os encaminhamentos para clínica de fertilidade. Tinha um preconceito bobo. Na minha cabeça, se eu fosse a uma clínica estaria comprando um filho, e, dentro de mim, algo dizia que eu tinha que exaurir as possibilidades de engravidar de forma natural. ” Um outro ponto muito importante é que de fato esses comentários do tipo “quando você menos esperar, vem”, “Desencana!” ou “Tempo de Deus” são a mais pura verdade. Eu tinha mudado o foco. Tinha relaxado totalmente em relação à maternidade quando ela apareceu na minha vida. Não posso dizer que ficava triste, pois meu marido sempre me apoiou dizendo que já tínhamos um ao outro e isso me deixava bem feliz. Nunca houve cobrança entre nós dois e isso foi muito importante. Mas pensava muito em como seria um desperdício nós dois não termos a oportunidade de criar e formar um outro alguém”.
Laureane Silveira de Abreu, advogada. Mãe de Bruno, de 10 meses

A psicóloga Layane Cedraz também vivenciou esta expectativa pela maternidade, e decidiu lançar o portal “Somos Tentantes”. Ela, que já administra o perfil @mamae6estrelas, no Instagram, também considera importante essa troca de experiências.

“Levei três anos até conseguir engravidar do nosso primogênito. Iniciamos com tratamentos mais simples, como uso de indutor ovulatório, coito programado, inseminação artificial. Até que tivemos a indicação de fertilização in vitro e engravidamos na primeira tentativa do nosso primogênito. Depois fizemos mais duas implantações onde em uma delas engravidei e perdi. Posteriormente, mais duas fertilizações, e a última delas resultou na gestação dos quadrigêmeos. Meus familiares e amigos sabiam que estávamos tentando engravidar e souberam quando recorremos a um serviço especializado. Eu e toda tentante deste mundo acabamos, em alguns momentos, nos incomodando com comentários desagradáveis e cobrança social pelo bebê que ainda não chegou”.
Layane é mãe de Rafic (9 anos), dos quadrigêmeos Ture, Enzo, Ianic e Luigi (4 anos) e Melissa (2 anos)

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